Sunday, February 13, 2011

Amantes e Ratos

O medo vai ter tudo,

Pernas, ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis. Vai ter olhos onde ninguém o veja, mãozinhas cautelosas, enredos quase inocentes, ouvidos não só nas paredes mas também no chão, no tecto, no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!), ouvidos nos teus ouvidos.
O medo vai ter tudo,
Fantasmas na ópera, sessões contínuas de espiritismo, milagres, cortejos. frases corajosas, meninas exemplares, seguras casas de penhor, maliciosas casas de passe, conferências várias, congressos muitos, óptimos empregos, poemas originais e poemas como este.
Projectos altamente porcos, heróis (o medo vai ter heróis!), costureiras reais e irreais, operários (assim assim), escriturários (muitos), intelectuais (o que se sabe), a tua voz talvez, talvez a minha, com a certeza a deles. Vai ter capitais, países, suspeitas como toda a gente, muitíssimos amigos, beijos, namorados esverdeados, amantes silenciosos, ardentes e angustiados.
Ah o medo vai ter tudo, tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer).
O medo vai ter tudo, quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar, quase todos, a ratos.
Alexandre O'Neill

No comments: